domingo, 22 de novembro de 2009

Amarga Traição


Dedicar um post sobre este tema não servirá de incentivo ou consolo para quem possa vir a cometer ou sofrer este tipo de evento. Parece-me claro que num primeiro momento, diríamos todos que se trata de um acto reprovável. Mas apesar de sabermos e termos o cuidado para que nada disso aconteça, por vezes, não se consegue resistir! Existem diversas teorizações acerca da ocorrência deste fenómeno, alguns alegam que para o facto disto acontecer o indivíduo não se encontra satisfeito com a relação, outras que referem que parte da necessidade de “experimentarem” e “viverem” outras pessoas, sendo por isso que surge geralmente sob a forma inesperada e incontrolável. Independentemente das razões, este tipo de ocorrências coloca, geralmente, termo às relações actuais e, estranhamente, noutras reforça-as ou passa-se simplesmente uma borracha! Será o modo mais adequado para lidar com isto? É obvio que uma pessoa traída terá sempre em pensamento que tudo poderá voltar a acontecer ou até com maior frequência por ter havido uma atitude de complacência (que pode ser visto como uma autorização para repetir o feito). Noutros casos podem mesmo verificar-se pensamentos optimistas tentando esquecer e “bola para frente”! Apesar de tudo o que possa ser dito, dos conselhos ou julgamentos que possamos fazer sobre isto, tenhamos passado ou não por elas, não me parece existir uma resposta ou forma certa de lidar com isto. É sem dúvida um cataclismo emocional, tudo o que conhecemos e vivemos é questionado e nada mais parece ter valor. Presenciei isto há pouco tempo com uma amiga próxima que foi traída “duplamente”e perdoou. Será preciso gostar extremamente da pessoa ou ser-se emocionalmente muito fria para encarar estas coisas como passageiras? Possivelmente, poderemos escolher umas das duas que servirão certamente para muitos e para outras serão completamente descabidas. Como disse, cada um pensa e age por si. A traição dupla seria uma traição descoberta por acaso, após algum tempo da sua ocorrência. Vejo-a como uma “dupla” traição por ter sido feito tudo para a esconder, foi um comportamento totalmente deliberado e consciente. Apesar de tudo, e talvez por já se tratar de uma relação de sete anos, esta viria a durar mais um ano, tendo então terminado por desconforto. Apesar de todo o sofrimento que possa ter sido causado e sentido, a verdade é que descomprometidamente continuam a encontrarem-se (envolvendo-se com tudo o que é típico num casal) de forma dissimulada e mais esporadicamente do que na relação que mantinham. Será este “saciar de saudades” saudável? Não irá piorar as coisas? Afinal de contas eles deveriam separar-se como casal, podendo continuar como bons amigos mas saberem delimitar fronteiras. Parece ser mais difícil do que isso. Mas mais do que nunca ele é menos dela, há grande probabilidade de apenas lhe dar um dividendo de si, estando envolvido noutras relações. A forma mais digna teria sido acabarem de uma forma seca e definitiva ou então nunca tê-lo feito. Visto ainda existirem sentimentos, saudades daquilo que se viveu, também devemos ter presente que poderá ocorrer o retorno da relação (feliz ou infelizmente). Se isto acontecer vão ficar ainda mais dúvidas acerca daquilo que possa ter ocorrido durante o período de afastamento, não se podendo reivindicar qualquer fidelidade do mesmo.

A Cruz de Saramago


A minha avó, beata convicta, costuma dizer que toda gente carrega uma cruz... E parece que Saramago, como qualquer ateu no nosso país, carrega a dele ao assumir-se como tal. E ao publicar um livro que põe em causa, critica e, segundo consta (ainda não o li), até ofende a religião e fé cristã, ele está a ser crucificado pela comunidade católica!
Eu nunca li a Bíblia, por isso não tenho como criticar, mas também fui educada como católica e só mesmo quem não quer, ou tem medo de 'desafiar' uma realidade construída e baseada numa série de valores e tradições sem sentido, é que não vê a falta de coerência e a hipocrisia que rondam esta instituição! Pior ainda! as pessoas continuam a não conseguir distinguir a fé, a espiritualidade e um eventual ser divino, daquilo que é obra humana, cheia de erros e "pecados" à nossa imagem! A cegueira é tal que pessoas como a minha mãe (que até tem algum bom senso e não leva a religião tão a sério como a maioria da família) preferem acreditar nas historinhas de Adão e Eva e até num paraíso que "dizem que existe mesmo na Terra!", do que nas evidências cientificas que demonstram que o homem descende (de 'parentes') do macaco. E depois, tudo que acontece de bom, é obra do Deus misericordioso; o que acontece de mal, é castigo de Deus!
Ter um filho homossexual, é castigo de Deus! No entanto, Deus ama todos os seus filhos por igual... E apesar Dele ser 'omnipotente', estes "filhos" escaparam ao seu poder, estão a desviar-se da sua natureza, estão a pecar! Por isso não podem fazer parte da Igreja católica... Apesar da sexualidade não ser um factor relevante para os seus membros, visto que eles fazem votos de castidade. Deus terá dito 'amai-vos e multiplicai-vos', mas os que o representam não podem contribuir para esta multiplicação...e "multiplicar" antes do casamento é pecado! É mais pecado ainda para a mulher! Aliás, uma mulher já está a pecar pelo simples facto de se mostrar, porque está a levar o homem a ter maus pensamentos. Ser rico também é pecado. Não importa se uma pessoa trabalhou a vida toda para conseguir a sua riqueza, "é mais fácil um camelo passar por uma agulha, do que entrar um rico no céu" - frase apregoada pelos membros da Instituição mais rica do mundo. Senão, reparemos nos acessórios "prada" e "gucci" usados pelo 'santo padre', representante máximo da Igreja católica.
Mas tudo isto parece muito natural aos olhos da comunidade católica...até porque foram 'treinados' a aceitar tudo que é católico sem questionar ou contestar. Parece que têm medo de pôr em causa o seu lugar no céu. E foi graças a este medo, um medo tão natural de quem ainda não conseguiu descobrir como é que viemos aqui parar ou qual é de facto o nosso destino, que a Igreja afirmou o seu poder ao longo dos séculos; o medo de questionar ou ofender os ensinamentos Daquele que a Igreja descreve da forma que melhor lhe convém - um Deus que castiga os seus filhos, que atribui uma cruz a cada um, como se tivéssemos que ser infelizes para provar que somos merecedores de um lugar num céu que ninguém sabe se existe.
É verdade que Saramago "exagerou" (termo utilizado pelo próprio) quando entrou no campo das ofensas (verbais), mas a Igreja já cometeu erros e ofensas tão mais graves, porque é que as pessoas não olham mais a isso?

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Idealismo


É tipicamente humano estar sempre a queixar-se de tudo, que tudo poderia ser melhor, de que nada lhe corre como deve ser ou que nunca mais se consegue atingir um determinado objectivo. É a busca por aquilo que idealizamos, a ansiedade de querermos tudo criteriosamente como concebemos que nos stressa, decepciona, cansa. Não seria tão mais fácil esperar ou viver simplesmente o que já temos? Não se trataria de uma atitude de desistência mas antes a simples constatação de que nada irá mudar brevemente, e que nenhum esforço desmedido poderá contrariar isso, que a nossa vontade não pode fazer o impossível. Não pretendo ser um moralista sisudo que encara o mundo como hostil. É talvez a espera constante que tenho entre cafés, à espera que tudo mude, que me obriga a viver de um modo real, de que nada mudará pelo simples desejo. Embora todos os dias acorde desejando que algumas coisas sejam diferentes, acabo de imediato por desistir e viver o que tenho. Não basta querermos, é necessário um conjunto probabilístico de circunstâncias se juntarem para podermos ter felizes acasos como o de sermos promovidos, congratulados ou mudarmos outro aspecto relevante das nossas vidas. Mas esse tipo de insatisfação tem muitas vezes a sua etiologia, precisamente por querermos todos o mesmo, conseguirmos um emprego bem remunerado, boas condições de alojamento e outros luxos pelos quais lutamos diariamente. É uma competitividade crescente que se vai instalando num meio cada vez mais caótico, de crise, de intolerância uns pelos outros. Tudo isto, porque queremos sempre e sempre mais, porque não ficamos pelo meio termo, porque não nos contentamos.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Contentamento descontente


Nem sempre acordamos da melhor forma ou jeito. Mesmo sem termos tido pesadelos ou uma noite acompanhada pela insónia, simplesmente acordamos assim, estranhamente por obra do acaso. Parece que tudo está imperfeito, tudo nos chateia, incomoda. Sendo precisamente no início do dia repreensível que entramos num ciclo de agravamento do humor, onde memórias ou assuntos stressantes nos vêem à mente e ainda pioramos. É como se todos os nossos problemas se juntassem para um café, fazendo-nos lembrar daquilo que ainda temos para pagar, gastar ou da vida descontente que possamos ter, ou de outros aspectos menos satisfatórios. São aqueles dias que ocasionalmente desgostamos, acarretando com a nossa própria frieza, indiferença de um estado letárgico. Pois é, todos temos desses dias que ocorrem cerca de 2 a 3 vezes por ano (para mim). Hoje é um desses dias “especiais”. Dada a sua frequência anual, resolvi aproveitar e escrever sobre isto e não me parece estar a correr muito bem (ora aí está o sentimento de agravamento). Parece que ninguém ou nada nos pode tirar do sentimento consternante, apenas nós nos satisfazemos egoisticamente com pensamentos menos graves. Macabramente adianto adorar estes dias por sentir também um misto de ironia e sarcasmo próprio em que todas as variáveis, “se isto…..se aquilo”, começam a questionar-me como seria se determinado evento se tivesse realizado ou se não tivesse ficado pelo planeamento ou mera possibilidade. A minha última variável ou devo considerar hipótese? Foi questionar-me acerca do que estaria precisamente a fazer se me tivesse saído mais um número no euromilhões. Bem, provavelmente estaria a escolher um apartamento na zona de Braga para dar algum aceleramento na minha integridade relacional (parâmetro vital). Mas não foi desta, terei de esperar pelo próximo sorteio de sexta (vejamos como o sentido de humor perdura apesar da frustração incontestável). Este tipo de raciocínio e muitos outros “se” levam-nos a concluir uma conjectura que há muito partilho comigo: a vida não é mais do que um conjunto vasto de probabilidades. Tudo o que fazemos ou dizemos tem repercussões próprias, por isso, dependendo das nossas acções (numa instância inicial) o produto desta “equação consequencial” poderá ser distinto. Apesar deste sofrimento todo durante grande parte do dia, tiramos outra conclusão de relevo considerável que nos faz sair do estado de embotamento emocional que, apesar de tudo, poderia ser pior. É neste momento que pensamos noutros “se” de conotação negativista e nos apercebemos da vida pacata que temos.

Estupidez por medo e vergonha


Acho que nos acontece frequentemente procurarmos estacionamento e sermos abordados por “arrumadores” (emprego fictício e injustificado) que mesmo sem nos ter dado directriz alguma, nos vêem pedir uma moedinha. Aqui reside uma particularidade minha, não sei se me devo enquadrar entre os bipolares mas, na verdade, tanto depressa sinto pena deles e lhes dou contribuições generosas tendo em conta o “não feito” deles ou então fujo a sete ventos, não estacionando em lugar algum entre meia dúzia de lugares vazios (de um parque sem pagamento) e estaciono num lugar onde é explicitamente proibido fazê-lo (sugerido pela minha namorada que não viu as indicações de certeza). Passado um ano e um mês após a minha primeira e última contra-ordenação por estacionamento em linha amarela, continuo a arriscar-me num dos meus surtos de mesquinhez e repugnância destes indivíduos que são cada vez mais. É obvio que era mais lógico dar o que tinha nos bolsos do que presentear a Direcção Geral de Viação com mais 25€. É importante referir que enquanto escrevia este post me auto-consciencializei, apercebendo-me do quão custoso me é ganhar essa quantia, então decidi correr até ao meu automóvel e removê-lo dali para estacioná-lo devidamente. E agora, para justiça do arrumador, posso argumentar que mais me valia ter esvaziado os bolsos do que ter percorrido mais 4 quilómetros à procura de um estacionamento gratuito, sem pedinte e sem proibições (despendendo mais em combustível do que aquilo que lhe poderia ter dado). Parece-me evidente que durante os meus primeiros tempos de condutor aprendi a dar pelo medo condicionado de que “os arrumadores vingam-se e riscam o carro se não lhe dermos nada” e claro que, quando se gosta e estima o próprio carro, qualquer risco é um desalento. Ao fim de algum tempo e dinheiro investido no apaziguamento da ressaca ou da necessidade de álcool barato e pão para estes licenciados em “Organização Parquimental” (coitados já não apanharam Bolonha), comecei a dar por pena, vendo-me a correr atrás deles para lhes dar o contributo que de boa fé fazia-me acreditar que fosse para a sopinha do dia. Descobri recentemente que os meus surtos de desprezo profundo, por estes operários, (alguns já pertencentes ao quadro efectivo) se davam precisamente nos estacionamentos pagos! Ora aí está, se já é incómodo pagar uma vez, ainda mais será fazê-lo duas vezes! Confesso que cada vez mais penso que me compensa juntar-me neste labuto enfadonho que nos obriga a trabalhar cerca de 10 a 12 horas diárias em pé, sempre de um lado para o outro, atentos à demarcação do nosso território laboral para chegarmos no final do dia com cerca de 25 a 30€. Temos de encarar a realidade, nem todos os dias são bons dias, ou porque chove ou porque o pessoal resolveu ficar em casa e não aparece ninguém para que um gajo diga: “benha benha, pó lado, mais um cadinho, tá bô, podes deixar”……e no fim “oia uma moedinha pá comer, que não comi nadinha hoje”. Além desses dias onde só conseguimos uns 15€, temos de contabilizar o preço dos consumíveis que claro dependendo do local onde os podemos arranjar, podem variar dentro de um espectro alargado, há que saber “marralhar” e fazer o negócio! Mas o que é barato é de desconfiar, pode ser produto de quinta cheia de tóxicos que nos fazem mal. Sim, porque o produto se for bom e 100% não nos faz mal! Posto isto, esta porra é complicada, somos mal vistos porque não investimos na nossa aparência (isto porque somos humildes), então as pessoas não pagam justamente os nossos serviços que noutros países da UE são bem mais caros mas isso porque também não há tanta concorrência lá e porque o pessoal segue áreas diferentes! Acho que o país fez bem em apostar nesta área “parquimental”, porque o povo português é um povo com pouco sentido de orientação e um bocadinho pó ceguinho, então é no nosso generoso empenho que fazemos o que melhor sabemos, chatear, enjoar e sacar dinheiro às pessoas. Vendo bem as coisas, estamos a lutar pela sobrevivência, a dar o litro diariamente, domingos e feriados repetindo sempre as mesmas e fatídicas palavras para tirarmos uns 500 a 600€ por mês, levando com condições precárias e não declaradas, não nos assegurando qualquer bonificação na aposentadoria. E é por isso que somos uns infelizes, desdentados, malcheirosos e cheio de parasitas. Os parasitas são opção nossa, por sermos poupados e nunca sabermos a que extremo a nossa fome pode chegar!