
Acho que nos acontece frequentemente procurarmos estacionamento e sermos abordados por “arrumadores” (emprego fictício e injustificado) que mesmo sem nos ter dado directriz alguma, nos vêem pedir uma moedinha. Aqui reside uma particularidade minha, não sei se me devo enquadrar entre os bipolares mas, na verdade, tanto depressa sinto pena deles e lhes dou contribuições generosas tendo em conta o “não feito” deles ou então fujo a sete ventos, não estacionando em lugar algum entre meia dúzia de lugares vazios (de um parque sem pagamento) e estaciono num lugar onde é explicitamente proibido fazê-lo (sugerido pela minha namorada que não viu as indicações de certeza). Passado um ano e um mês após a minha primeira e última contra-ordenação por estacionamento em linha amarela, continuo a arriscar-me num dos meus surtos de mesquinhez e repugnância destes indivíduos que são cada vez mais. É obvio que era mais lógico dar o que tinha nos bolsos do que presentear a Direcção Geral de Viação com mais 25€. É importante referir que enquanto escrevia este post me auto-consciencializei, apercebendo-me do quão custoso me é ganhar essa quantia, então decidi correr até ao meu automóvel e removê-lo dali para estacioná-lo devidamente. E agora, para justiça do arrumador, posso argumentar que mais me valia ter esvaziado os bolsos do que ter percorrido mais 4 quilómetros à procura de um estacionamento gratuito, sem pedinte e sem proibições (despendendo mais em combustível do que aquilo que lhe poderia ter dado). Parece-me evidente que durante os meus primeiros tempos de condutor aprendi a dar pelo medo condicionado de que “os arrumadores vingam-se e riscam o carro se não lhe dermos nada” e claro que, quando se gosta e estima o próprio carro, qualquer risco é um desalento. Ao fim de algum tempo e dinheiro investido no apaziguamento da ressaca ou da necessidade de álcool barato e pão para estes licenciados em “Organização Parquimental” (coitados já não apanharam Bolonha), comecei a dar por pena, vendo-me a correr atrás deles para lhes dar o contributo que de boa fé fazia-me acreditar que fosse para a sopinha do dia. Descobri recentemente que os meus surtos de desprezo profundo, por estes operários, (alguns já pertencentes ao quadro efectivo) se davam precisamente nos estacionamentos pagos! Ora aí está, se já é incómodo pagar uma vez, ainda mais será fazê-lo duas vezes! Confesso que cada vez mais penso que me compensa juntar-me neste labuto enfadonho que nos obriga a trabalhar cerca de 10 a 12 horas diárias em pé, sempre de um lado para o outro, atentos à demarcação do nosso território laboral para chegarmos no final do dia com cerca de 25 a 30€. Temos de encarar a realidade, nem todos os dias são bons dias, ou porque chove ou porque o pessoal resolveu ficar em casa e não aparece ninguém para que um gajo diga: “benha benha, pó lado, mais um cadinho, tá bô, podes deixar”……e no fim “oia uma moedinha pá comer, que não comi nadinha hoje”. Além desses dias onde só conseguimos uns 15€, temos de contabilizar o preço dos consumíveis que claro dependendo do local onde os podemos arranjar, podem variar dentro de um espectro alargado, há que saber “marralhar” e fazer o negócio! Mas o que é barato é de desconfiar, pode ser produto de quinta cheia de tóxicos que nos fazem mal. Sim, porque o produto se for bom e 100% não nos faz mal! Posto isto, esta porra é complicada, somos mal vistos porque não investimos na nossa aparência (isto porque somos humildes), então as pessoas não pagam justamente os nossos serviços que noutros países da UE são bem mais caros mas isso porque também não há tanta concorrência lá e porque o pessoal segue áreas diferentes! Acho que o país fez bem em apostar nesta área “parquimental”, porque o povo português é um povo com pouco sentido de orientação e um bocadinho pó ceguinho, então é no nosso generoso empenho que fazemos o que melhor sabemos, chatear, enjoar e sacar dinheiro às pessoas. Vendo bem as coisas, estamos a lutar pela sobrevivência, a dar o litro diariamente, domingos e feriados repetindo sempre as mesmas e fatídicas palavras para tirarmos uns 500 a 600€ por mês, levando com condições precárias e não declaradas, não nos assegurando qualquer bonificação na aposentadoria. E é por isso que somos uns infelizes, desdentados, malcheirosos e cheio de parasitas. Os parasitas são opção nossa, por sermos poupados e nunca sabermos a que extremo a nossa fome pode chegar!


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