
É tipicamente humano estar sempre a queixar-se de tudo, que tudo poderia ser melhor, de que nada lhe corre como deve ser ou que nunca mais se consegue atingir um determinado objectivo. É a busca por aquilo que idealizamos, a ansiedade de querermos tudo criteriosamente como concebemos que nos stressa, decepciona, cansa. Não seria tão mais fácil esperar ou viver simplesmente o que já temos? Não se trataria de uma atitude de desistência mas antes a simples constatação de que nada irá mudar brevemente, e que nenhum esforço desmedido poderá contrariar isso, que a nossa vontade não pode fazer o impossível. Não pretendo ser um moralista sisudo que encara o mundo como hostil. É talvez a espera constante que tenho entre cafés, à espera que tudo mude, que me obriga a viver de um modo real, de que nada mudará pelo simples desejo. Embora todos os dias acorde desejando que algumas coisas sejam diferentes, acabo de imediato por desistir e viver o que tenho. Não basta querermos, é necessário um conjunto probabilístico de circunstâncias se juntarem para podermos ter felizes acasos como o de sermos promovidos, congratulados ou mudarmos outro aspecto relevante das nossas vidas. Mas esse tipo de insatisfação tem muitas vezes a sua etiologia, precisamente por querermos todos o mesmo, conseguirmos um emprego bem remunerado, boas condições de alojamento e outros luxos pelos quais lutamos diariamente. É uma competitividade crescente que se vai instalando num meio cada vez mais caótico, de crise, de intolerância uns pelos outros. Tudo isto, porque queremos sempre e sempre mais, porque não ficamos pelo meio termo, porque não nos contentamos.


Sem comentários:
Enviar um comentário