É do conhecimento generalizado que os “tempos” mudam. E não é só o tempo ou as gerações em termos cronológicos, mas panóplia de valores inerentes. Este fenómeno intergeracional verifica-se em todas as culturas, numas mais noutras menos de forma mais ou menos pacífica. Tudo isto depende não apenas da cultura em que se viveu, mas principalmente por aquilo que defino de flexibilidade pessoal. Sem descorar qualquer preferência pelos “outros tempos”, saudosamente recordados pelos mais antigos, deve subsistir (na minha opinião) a capacidade de discernir o que é sensato/correcto daquilo que muitas vezes constitui um conservadorismo excessivo.
O tempo “mudou” porque as pessoas assim o vêem. Não se terá alterado assim tanto, provavelmente sucedeu-se uma pequena evolução a nível social, havendo uma maior aceitação de fenómenos sociais que sempre persistiram. Basta pensarmos que o tema da homossexualidade é encarado gratuitamente como uma psicopatologia pelos nossos avós ou até mesmo pelos nossos pais. Esta inflexibilidade deve-se na maioria das vezes pela ausência de raciocínio individual sobre o assunto, sendo encontrado suporte explicativo sobre o tema naquilo que é gratuito e envolve pouco esforço (conformismo religioso). Não obstante, a homossexualidade e o sexo antes do casamento, temas avassaladores para os seguidores devotos, são bem mais antigas que Cristo, constituindo até mesmo estatuto (no caso da homossexualidade) na Grécia antiga. É patente que isto sempre existiu e em nada nos irá prejudicar ou criar diferenças. Porém, o cepticismo cria a desigualdade e desconforto ilusório quando este tipo de naturezas acontece. Eventualmente haverão pessoas que façam questão de se preservarem castas até ao casamento, respeitando isso. É uma decisão pessoal do mesmo modo que o sexo consentido é, não lhe sendo indispensável qualquer ministério administrado pelo divino.
Trata-se de uma carência a nível do exercício mental, de pensar por si, sendo mais propenso incorrer no facilitismo em meios rurais com níveis mais elevados de aliteracia. Convém sublinhar que esta variável é facilitadora mas não se encontra directamente associada.
O que me parece conclusivo é que sempre foi mais fácil, menos árduo adoptar como crenças imutáveis os “ensinamentos” pregados por um sacerdote tendo por fonte um compêndio falacioso e metafórico de 1357 páginas, cansado de mutações e reformulações, exigindo interpretações subjectivas, continuando a ser “felizmente” o mais vendido. Parece inevitável acreditar nalgo superior, mas não o devemos fazer da forma mais fácil, é preciso ser-se crítico, elaborarmos a nossa própria explicação acerca do mundo e acredito que se o fizermos nos sentiremos salvos a mesma. Elaborada uma explicação própria, acredito que será mais fácil compreender aquilo que tantos têm por assimetrias da vida. Recorrendo ao raciocínio arcaico e ao conceito de “perfeição” (ser perfeito entenda-se aquele devoto que segue à risca a doutrina), se o divino fizesse tanta questão, já nos teria feito de acordo com essas directrizes. Deste modo, se não o fez, significa que este conceito perfeccionista é uma criação arcaica, devendo aceitar o que é natural.
Fora qualquer generalização, existem pessoas de outras gerações que sempre pensaram de forma crítica, por si. Na actualidade esse exercício é fácil de levar a cabo, o individuo cresce, recebe as mais variadas instruções e elabora o seu próprio raciocínio crítico sobre o mundo que o rodeia. Apesar de tudo, nada nos garante que os conflitos intergeracionais se extingam, sendo bem provável que subsistem, discriminando formas arcaicas de novos pensadores através de um processo natural de evolução social.


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