Somos seres extraordinários, mas onde a imprevisibilidade opera indubitavelmente. Temos, por norma, uma grande tendência para afirmar que nos conhecemos ou que conhecemos outros como a palma da nossa mão, o que faz ou não sentido dependendo do tipo de conceptualização que fazemos acerca do comportamento humano e da sua previsibilidade.
O conceito que em psicologia aborda este tipo de questões corresponde à personalidade. Durante algumas décadas foi-se questionando sobre a verdadeira natureza comportamental do Homem, refutando e refinando-se conjecturas sobre o tema. Apesar da vasta controvérsia e divisão de opiniões teóricas, o modelo que é actualmente aceite (Big five), postula que a personalidade é sustentada por 5 traços gerais: amabilidade; conscensiosidade; abertura à experiencia; extroversão e neuroticismo.
Apesar destes estarem presentes em grau variado em cada pessoa, permitindo a sua individualidade, não explicam todo o comportamento. Vejamos, temos sempre uma noção de como responderíamos a uma determinada situação estranha, por aproximação de uma situação semelhante pela qual já tivéssemos passado. Isto parece ser uma lacuna relevante que a psicologia da personalidade parece não poder (de momento) explicar. Daqui, o leitor poderá tirar as suas próprias conclusões, do mesmo modo que tirarei as minhas. Posto isto, não nos conhecemos totalmente, nem prevemos concretamente a nossa reacção relativamente a uma nova situação. Deste modo, será falacioso fazermos prognósticos como “nunca matarei”, uma vez que não sabemos como podemos reagir num contexto específico que nos coloque uma arma na mão e uma carga incondicional de fúria.
Pois é, afinal somos surpreendentemente complexos ao ponto de não nos conhecermos afincadamente. Se pensarmos nesta realidade e nos olharmos simultaneamente para um espelho, curiosamente sentir-nos-emos diferentes ou mesmo estranhos podendo ainda questionar as nossas próprias formas faciais que nos parecem substancialmente diferentes (um “eu” diferente). Isto acontecerá devido à redefinição do self e do padrão comportamental que estamos naquele preciso momento a realizar. Não sejamos egoístas ao ponto de conhecermos tudo sobre nós, deixemos alguma coisa para se ir descobrindo, para irmos explorando. É uma realidade inerente ao nosso próprio desenvolvimento. Vamo-nos fazendo, desfazendo, descobrindo um pouco do “eu” a cada dia.


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